8 de mai de 2013

Clarice é uma garota feita.

rascunho para um longa metragem.


Muito feliz.

Chorava todos os finais de semana porque não sabia que era feliz.

Em noites mais difíceis, Clarice trazia um copo de vodka exclamativo em sua mão. Com mistérios monossilábicos fazia frases curtas. Tinha muito bom gosto. Mudou-se de sua cidade natal, somente para mudar os ares. Na capital paulista encontrou um milhão de amigos, um amor e outras dezenas. De um amor teve um fruto.

Teobaldo se mudou também. No seu caso quando acabou o dinheiro, o trabalho e o amor. Mudou para outra capital e foi exatamente nesse momento que conheceu Clarice. As conversas se davam pelos chats com câmera, por e-mails, infinitas mensagens de celular, mesmo não se conhecendo pessoalmente, os dois alimentavam uma paixão virtual.

Téo escolheu Clarice pelas redes sociais, a princípio achava que iria se enganar com a beleza da foto, mas anos depois pode ter certeza de que não.

Clarice não conhecia o mar. E odiava tomar sol. Téo gostava de se queimar, dizia que ‘se for à praia, que pegue ao menos um bronze. ’
 
Ambos passavam pelo mesmo momento, ela procurava um apartamento, ele também. Encontravam. Ele procurava por um novo emprego, ela também. Encontravam. Cada um na sua capital. A ansiedade ia embora nas conversas por voz e pelas letras. Chegavam a combinar, um, dois, três encontros, mas não se encontravam.

Os papos diminuíram, as opções aumentaram. Novos beijos, outras conversas e a distância foi fazendo sentido. Cada um no seu canto seguiu o seu caminho. Téo começou a namorar sério na sua capital e Clarice foi morar com um rapaz e depois engravidou.

As conversas eram curtas, mas existiam. Clarice disse que esperava uma menina e Téo desejou muita sorte. Queria enviar um presente mas sentia uma distância absurda de Clarice. Pensava ser o ciúmes do seu namorado.


Para a menina ele iria dar uma câmera fotográfica analógica Olympus Trip 35, como a que seu pai tinha. Claro que iria demorar muito para ela poder usar a câmera, mas talvez um dia quando crescesse iria entender que "o futuro é analógico."

Após um ano, alguns amores, uma tarde parada e o dedo deslizando pela timeline. Téo percebeu uma Clarice diferente. Ela estava mais triste do que o normal...


Entenda que a esse ponto Téo já havia brigado 75 vezes com sua ex- namorada antes da mesma partir. Ela se foi para Portugal de navio e pediu para que nunca mais ele a procurasse. Entendeu que não devia ir contra as ameaças dela e em todo caso, iria poupar a chance de ter mais 75 novas brigas.

...voltando para a timeline, percebeu que Clarice recebia mensagens de esperança, do tipo: “Força linda, vai dar tudo certo!”, “Amiga se precisar de algo, estou aqui!”, “Você já está melhor!?” Um aviso sonoro emergencial tocou forte na cabeça do rapaz: “Preciso ajudá-la!”


Perguntou via mensagem -Você está bem, C?

Clarice contou que dias depois de ter terminado seu namoro, o pai da criança resolveu desaparecer. Disse que esperou com sua filha por três semanas. Estava solitária e sentiu muito medo.


Até aí, Clarice e Teobaldo não se conheciam pessoalmente.


Téo pegou o primeiro avião e foi ao encontro de Clarice. Estava muito cansado e cochilou no vôo. Depois de 15 minutos no táxi conseguiu encontrar o endereço dela e tocou a campainha. A porta se abriu e um homem alto com cabelos e barbas compridas, ruivo, atende a porta. Quando Téo perguntou sobre Clarice o homem enorme virou-se e voltou com as mãos até o rosto do rapaz. Foi um soco tão forte, que Téo desmaiou, caindo ensangüentado. Ficou por alguns minutos no chão cor de abóbora até acordar assustado. Era a mão da aeromoça em seu rosto, seu vôo tinha chegado e o soco a porta e o táxi, não passaram de um sonho.

Respirou a metrópole paulista de Clarice e pegou o metrô sentido Vila Madalena. Já era tarde e a estação estava tranqüila. Desceu ainda mais duas ruas e chegou ao Edifício Cícero. Tocou o 606 e o portão se abriu. Subiu o elevador acompanhado de uma senhora com um jack russel terrier. Com a barba por fazer, resquícios de perfume importado, Téo tocou no apartamento e esperou.


Clarice acompanhada de sua filha abriu a porta.

O trago de Clarice naquela noite foi mais longo e trocou a Vodka pelo Casillero Del Diabo que Téo havia trazido. Um disco do Coltrane começou a tocar. Clarice contou toda a sua história e o rapaz ficou por uns dias.

Com o tempo, Téo resolveu mudar de capital e foi morar ao lado de Clarice e de sua filha. A criança cresceu e seu pai verdadeiro retornou depois de 7 meses, dizendo que havia se mudado para Budapeste.

Aquela foto no perfil que o rapaz havia escolhido a 8 anos atrás revelava realmente a garota que Clarice era de fato. Os choros mudaram de semanais para mensais, até se tornarem bimestrais e depois semestrais. Dessa vez era um choro acompanhado de outro e logo um sorriso acompanhado de outro. Pelo menos um pouco de tristeza é preciso para ser feliz. Téo deixou a barba crescer, Clarice aparou os cabelos. Logo sua filha fez seis anos e os três acreditavam que ali existia amor. E no fundo, tudo contribuía para isso.





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